BMW M235i xDrive Gran Coupé

Um foguete cheio de estilo

TESTE

Por Paulo Sérgio Cardoso 05-09-2021 07:00

Fotos: Gonçalo Martins

No topo da assertividade desportiva de inédito Série 2 Gran Coupé, o motor 2 litros turbo de 4 cilindros mais potente na história da marca, com 306 cv. Além do carisma da berlina de 4 portas baseada no Série 1, performances entusiasmantes cravadas ao asfalto por sistema de tração integral e diferencial Torsen no eixo dianteiro.

A personalidade do motor 2 litros turbo de 306 cv desvenda-se logo no despertar, com um discreto, mas sempre presente ronronar produzido pelo sistema de escape, a fazer lembrar que sob o capot está o mais potente bloco 4 cilindros alguma vez produzido pela BMW. O eleito para animar a versão desportiva por excelência do também inédito Serie 2 Gran Coupé, a berlina baseada no Série 1 e concorrente direta do Mercedes CLA – os dois são os verdadeiros e únicos coupés de quatro portas do segmento, marcados pela ausência de moldura nos vidros das portas laterais.

A denominação M235i não dispensa a assinatura do departamento desportivo da BMW, o que acaba por criar forte peso emocional que vai além do logótipo M nas pinças do sistema de travagem desportivo, no volante e no painel de instrumentos digital. Esse peso  está demonstrado na presença de tração integral xDrive, de diferencial autoblocante no eixo dianteiro e de caixa automática desportiva de 8 velocidades com programa de arranque para acelerações mais rápidas e eficazes (Launch Control) com patilhas no volante. Mas não só. O cunho da M Performance aplica-se à afinação específica da assistência da direção (mais direta) e os ajustes otimizados da rigidez das ligações ao solo, em que se destaca a suspensão desportiva M rebaixada 10 mm.

Como não poderia deixar de ser, o visual exterior conta com elementos marcantes, como o efeito tridimensional gerado pela grelha dianteira ou os para-choques distintos do irmão M135i. As duas saídas de escape têm formato único entre os restantes elementos da gama Série 2 e opcional Pack M Performance, por 1550 euros (na unidade em teste), incluindo diversos elementos exteriores a negro: capas dos espelhos retro- visores, grelhas, ponteiras de escape e até presença de pequeno defletor na tampa da mala. Extras são igualmente as jantes de 19’’ bicolores e de raios duplos (650 €) – de série, o M235i traz jantes de 18’’.

O habitáculo, envolvente, de qualidade insuspeita e elevado pendor tecnológico, peca apenas por depender do recurso à lista de opcionais para apurar o ambiente – de que é exemplo a unidade testada. Nesta são mais flagrantes os bancos desportivos M integrais (520 €) e o painel de instrumentos digital de 10,25’’ que impõe a sua combinação com o sistema de navegação – no caso da unidade testada, são parte do opcional Pack Connectivity  (2700 €), conjunto que inclui sistema de navegação Professional com monitor tátil de maiores dimensões (também de 10,25’’, controlo por gestos (pouco prático, sendo mais rápido, por exemplo, rodar o botão do volume do rádio do que gesticular no ar...), Hotspot WiFi a bordo para ligação de até dez dispositivos, cinco serviços digitais remotos, suporte para Apple CarPlay e Android Auto e alarme.

O Série 2 partilha plataforma com o Série 1 – que disse adeus à tração traseira nesta geração – e por isso, apesar desta versão M235i dispor de tração integral, percebe-se, desde cedo, que as afinações de entrega de potência têm como preferência o eixo dianteiro. Toda a atitude do carro em curva, particularmente em aceleração, está mais focada na precisão de trajetória do que propriamente numa intensa diversão ao volante, à melhor forma da M. Os modos de condução (Eco, Comfort e Sport) permitem ao condutor gerir o temperamento do veículo, com hipótese de personalização dos parâmetros de condução deste último – o amortecimento variável (160 €) não estava presente na unidade testada, mas gostámos particularmente da relação conforto/rigidez da suspensão de série.

O motor e a caixa de velocidades admitem utilização quotidiana normalizada, sem radicalismos, subindo a mostarda ao nariz do M235i apenas quando se aciona o modo  Sport. Felizmente que o condutor pode sempre optar pelo modo Drive ou manual/sequencial da caixa, uma vez que no modo mais desportivo (S) a rotação tende sempre a aproximar-se do red line, como se afinada para pista. O motor tem um temperamento muito  linear, quase sem diferenças acelerando-se a partir 2000 rpm ou a partir das 5000, o que se contribui para rápidas retomas de velocidade (ver medições), acaba por não ser a melhor solução emotiva e tem- peramental. A capacidade de aceleração está bem apadrinhada pela motricidade e extrema rapidez das trocas da caixa automática. Mas falta mais sal e pimenta à condução. Porque a sonoridade do motor resulta algo artificial e por faltar um pouco mais de agilidade e de perceção sensorial na interação com a estrada.

A direção é ótima, com peso e consistência, mas deixa chegar interferências acelerando-se forte, em curva, onde o carro tende a comportar-se mais como um tração dianteira, apoiado no autoblocante, do  que a tentar enviar potência para animar o eixo traseiro. Ou seja, anda muito e trava forte e de forma equilibrada, mas não é fácil chegar aquele ponto de necessidade de uma pequena contrabrecagem em aceleração à saídas curvas, como um M nascido sobre plataforma de tração traseira.

Esta versão, produto do departamento M Performance da BMW, não inclui a intensidade dinâmica ou sensorial dos verdadeiros M. As excelentes credenciais do motor 2.0 turbo de 306 cv são bem geridas pelo sistema de tração integral, que é mais proveitoso na otimização da eficácia do comportamento dinâmico do que em proporcionar diversão ao volante. A carroçaria Gran Coupé dá nas vistas – esta cor ajuda – e o interior fascina pela pegada digital. Lamenta-se que a maioria dos elementos seja opcional.

Ler Mais

Conte-nos a sua opinião 0

TESTE