Opel Corsa-e vs. Renault Zoe 50 R135

Gerações em choque

CONFRONTO

Por Paulo Sérgio Cardoso 31-07-2021 07:00

Fotos: Gonçalo Martins

Que argumentos terá a Opel para inverter o domínio da Renault do ‘mercado eletrificado’ de automóveis citadinos?
Nascido em berço mais moderno, o Corsa-e acrescentará mais-valias ao Zoe, um valor seguro entre os utilitários alimentados a carga de bateria?

O Corsa-e representa a estreia absoluta da Opel na eletrificação total do automóvel. É um dos frutos da sinergia de grupo, assentando sobre a versátil plataforma do grupo Stellantis – de onde também nascem os Peugeot 208 e 2008 elétricos e o DS 3 Crossback e-Tense –, preparada para acolher soluções, quer a combustão, quer eletrificadas. Este é mesmo um dos principais pontos divergentes entre o recém-chegado Corsa-e e o já veterano Renault Zoe, modelo que a marca francesa tem vindo a apurar ao longo dos diversos anos (sete) e gerações (duas), nascido sobre base 100% pensada só para mobilidade elétrica – recorde-se que a Renault mantém a gama Clio térmica, mesmo tendo-lhe somado versão híbrida, E-Tech.

À partida, muitas serão as vantagens do Corsa, assentes numa bateria de iões de lítio de 50 kW (mas onde apenas 46 kW são úteis) alojada de forma a pouco ou nada beliscar a versatilidade do veículo, que mantém habitabilidade e bagageira. Mais avançado é, também, o sistema de carregamento da bateria, preparado para recargas rápidas até 100 kW (abastece 80% em 30 minutos), estando todas as versões dotadas de série de carregador monofase de 7,4 kW (8 horas para uma carga total).

Ao seu lado, o Renault Zoe ganha vantagem pela bateria de superior capacidade útil, 52 kWh, mas não acompanha as opções de carregamento rápido, ao não aceitar mais que 50 kW: uma hora e dez minutos para os mesmos 80% do Corsa. Ligado a uma fase de 7,4 kW, registo de nove horas e vinte e cinco minutos.

Sendo modelos de complexões físicas mais aptas para uso citadino, será imperativa a presença de postos de carregamento na habitação e/ou local de trabalho para fugir à tirania e dependência de postos públicos. Mesmo com as baterias em questão, em uso quotidiano normalizado é fácil contar com autonomias médias reais entre os 300 km (Corsa- e) e os 350 km (Zoe), começando aqui a alicerçar-se a vantagem da Renault neste domínio. Não só porque a bateria do Renault é de superior capacidade, como o consumo médio da unidade de potência elétrica é inferior e, ainda, por uma maior capacidade regenerativa de energia na desacelerações e travagens, a que não será alheia a superior experiência com a tecnologia e também os ensinamentos recolhidos do programa da marca na Fórmula 1.

Olhando os números com mais alguma atenção, o consumo médio do Corsa- e rondará os 15,5 kWh/100 km, ao passo que o Renault conseguirá ficar abaixo dos 14 em trajetos e ritmos semelhantes, incluindo cidade e vias periféricas, o que facilmente lhes garante as referidas autonomias. Mas aplicando todos aqueles cuidados que atualmente os utilizadores de veículos elétricos tomam quase como um jogo, ou seja, antecipação dos momentos de desaceleração, cumprimento de limites legais ou ir apoiando o pé no travão (ou selecionar o nível máximo regenerativo permitido pelas transmissões) em descidas pronunciadas, o Corsa-e pode percorrer cerca de 320 km e o Zoe passar a barreira dos 370 km.

Por outro lado, quem goste de sentir a entrega instantânea de binário nos arranques ou nas recuperações, a velocidades baixas e médias (ver os rápidos valores por nós aferidos nas medições), puxando pelos 136 cv de ambas as máquinas elétricas, a autonomia baixa para cerca de 250 km no Corsa-e e para 300 km no Zoe. O mesmo, se houver necessidade de os levar para percursos em autoestradas (velocidades máximas limitadas), onde consumos médios acima de 20/22 kWh/100 km provocam a evaporação de eletrões!

Voltando aos motores, não obstante o empate técnico na potência, a unidade da Opel oferece binário superior (260 Nm vs 245 Nm), que pode ajudar a explicar a dinâmica mais despachada do Corsa-e logo que selecionado o modo de condução Sport (Eco e Normal são as restantes opções). Então, tocar no acelerador passa a transmitir um nervoso miudinho ao Corsa elétrico, impelindo-o de forma lesta para acelerações (quase) ao nível de um pequeno desportivo!

O Zoe inclui função Eco para mais contida gestão do consumo, mas em modo normal não acompanha a rapidez do Corsa – não existem diferenças nos pesos. Só que, depois, o Zoe consegue a já referida vantagem na autonomia...

Com a última atualização, o habitáculo do Zoe muito melhorou na ergonomia, somando modernidade quer na aparência e clareza informativa do painel de instrumentos digital, quer ainda pela adoção do novo sistema multimédia de apresentação em monitor digital tátil de disposição vertical, de generosas 9,3’’. O comando ‘e-shifter’ da caixa automática surge colocado em plano elevado e mais à mão, o mesmo acontecendo com a distribuição e dimensão dos locais de arrumo a bordo. De habitáculo mais prático e com tablier mais alegre e visualmente moderno, o Zoe peca pela habitabilidade furos abaixo do que seria de supor face à observação exterior da carroçaria, mais alta, volumosa e de maior altura ao solo – este último fator traz vantagem em matéria de acessibilidade, em especial se existirem cadeirinhas de criança em jogo. Mas a referida e mais antiga conceção base (para alojar baterias) obrigou a elevar todo o habitáculo, roubando centímetros ao espaço entre assentos e tejadilho (especialmente atrás), sendo que o banco do condutor não possui ajuste em altura. Já a bagageira é bem mais generosa.

A faceta mais atualizada do Corsa é visível nas soluções ergonómicas do habitáculo ou na forma como o espaço interior surge melhor aproveitado, não obstante a inferior superfície vidrada fazer querer ser o Opel mais apertado que o Renault. Depois, todos os elementos ligados à condução são mais ligeiros, da direção ao rolamento, com o Corsa a surgir bem mais sereno e melhor insonorizado, além de ser mais fácil conseguir uma posição ao volante mais de desportivo do que de SUV.

Mas face às soluções de design e grafismo dos elementos digitais, em particular o modo como a informação surge no painel de instrumentos – sendo o monitor um mero retângulo, parece ter sido ali colocado com poucos cuidados de integração – ou no monitor central tátil, o interior do Zoe acaba por parecer mais diferenciado, à imagem do que o utilizador de um modelo eletrificado poderá esperar.

A completa oferta de equipamento é outra das vantagens do Zoe face ao Corsa: o Opel surge em versões base mais acessíveis e permite leque de personalizações. Ainda assim, cerca de 35 mil euros são valores proibitivos enquanto segundo carro do agregado familiar, pelo que a mobilidade elétrica continuará (por cá) muito alavancada pelas benesses fiscais a empresas...

Em resumo, o Opel Corsa-e é um dos (muitos) reflexos do investimento em modernidade tecnológica por parte do Grupo Stellantis, ao criar plataformas multifacetadas, capazes de acolher modelos térmicos ou eletrificados. É um utilitário de condução ligeira e rápida, dinamicamente mais equilibrado e com ampla gama de personalização. As sucessivas atualizações do Renault Zoe (e a experiência da marca...) culminam, agora, num modelo de ampla autonomia, consumos contidos e interior modernizado. Mas é notada a idade da base técnica do elétrico francês.

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