Aston Martin DBS Superleggera Coupe

Agente secreto

TESTE

Por Paulo Sérgio Cardoso 03-04-2021 07:00

Fotos: Gonçalo Martins

Tem relação peso/potência de moto (2,5 kg/cv!), mas o refinamento de um verdadeiro veículo de luxo. Tem um estonteante V12 biturbo de 725 cv e a souplesse desconhecida a outro qualquer Super Gran Turismo (GT). O seu nome? Superleggera. DBS Superleggera.

Perante já tão vasta oferta de superdesportivos com superperformances e superdinâmica, sempre questionei qual a verdadeira razão da personagem James Bond ter (quase sempre) como carro de serviço um Aston Martin – à parte as questões de contratos publicitários e a relação umbilical a um fabricante da mesma génese, inglesa... Foi preciso abrir portas, sentar ao volante, ligar a ignição e lidar com o V12 biturbo para iniciar o processo de entendimento. E foi também preciso tocar nas peles, madeiras e metais do interior (a qualidade do revestimento do tejadilho, em Alcantara, impressionou!) e até sentir o cheiro, para beber o suco da exclusividade ímpar que se vive a bordo, inigualável face a qualquer outro fabricante de modelos de índole GT (Gran Turismo). Se é o melhor do mundo? Difícil responder, mas as dúvidas relativas à escolha de James Bond... estavam todas dissipadas!

E se performance é algo que um agente secreto procura em momentos de fugas ou perseguição, então esta versão Superleggera do DBS entra no campo do estonteante, com relação peso/potência de apenas 2,5 kg/cv, consequência da junção dos 725 cv do V12 biturbo de 5,2 litros a uma estrutura focada na ligeireza e máxima rigidez à torção, onde praticamente só encontramos alumínio e fibra de carbono. Aliás, os apaixonados por mecânica e engenharia ficarão boquiabertos ao abrir o capot, vislumbrando o berço do V12, os reforços estruturais, o carbono à vista nos painéis, a pureza visual das ligações ao solo e ainda o refinado trabalho aerodinâmico – tecnologia Aeroblade é capaz de gerar 180 kg de força sobre o eixo traseiro abordando-se a (estonteante!) velocidade máxima, sem necessidade de espampanantes apêndices aerodinâmicos, o que é de louvar, com a engenharia a entender a necessidade de manter a classe do design exterior!

Tecnicamente semelhante ao DB11, a versão Superleggera do DBS (que surge na gama como substituto do Vanquish S) distingue-se por algum radicalismo desportivo, caso do peso reduzido, temperamento intempestivo do motor e forma como a potência chega ao eixo traseiro motriz, sonoridade de escape, e leis específicas do amortecimento variável. Mas tudo com o condão de em nada manchar o lado mais requintado que está na génese de qualquer Aston Martin, podendo o cliente optar por uma configuração de interior mais clássica, como na unidade testada.

Como ponto menos exclusivo deste DBS Superleggera encontramos alguns botões herdados da Mercedes, bem como o módulo do computador de bordo e todo o sistema de infoentretenimento, datado, e não das últimas gerações, pelo que o seu grafismo está longe de impressionar pelo vanguardismo...

Botão no braço direito do volante permite ao condutor optar por um dos três modos de condução (GT, Sport e Sport Plus, na escala crescente de radicalismo), sendo que o do braço esquerdo ajusta o nível de amortecimento. O controlo de estabilidade oferece três modos de ação: On, Track e Off.

A colocação recuada do V12 para garantir um quase equitativo equilíbrio das massas pelos eixos (51:49), bem como a fleuma do mesmo, faz com que o habitáculo seja invadido por ondas de calor. Calor esse que pode subir a clima tórrido caso se queira abusar da pressão do acelerador! Mesmo no modo de condução mais calmo, que permite conduta descontraída, envolta em suavidade de movimentos ao volante e conforto de rolamento digno desse nome, o V12 deixa antever a sua brutal entrega de força. Ainda antes de acelerações maiores, há que elogiar a total ausência de ruídos de engrenagem por parte da caixa automática (ZF, de 8 velocidades), em que nem damos conta de saltar entre ‘D’ e ‘R’, por exemplo!

Saindo do registo «James Bond de fato e laço ao pescoço, a caminho de uma festa da alta sociedade» e passando para as cenas de ação/perseguição pós festa, ainda assim, há que saber tratar o acelerador com carinho. Qual puro Gran Turismo, as acelerações chegam ao epíteto de estonteantes... ainda antes de o acelerador ser pisado a fundo!

O temperamento da mecânica é reflexo do cruzamento dos brutais 900 Nm com os explosivos 725 cv, com ímpeto na forma de escalada de rotação que constantemente enerva o eixo traseiro, mesmo contando este com a aderência dos Pirelli P Zero 305/30 montados em jantes de 21’’ e autoblocante. As passagens de caixa, afinadas à condição de um Gran Turismo e não à brutalidade de um hiperdesportivo, chegam para desmultiplicar força em velocidade a ritmos alucinantes, com relações relativamente curtas que espevitam ainda mais o temperamento do conjunto. Se as palavras forem poucas para descrever os atos, basta atentar nos valores das retomas de velocidade, que têm como efeito o constante encostar do estômago às costas do banco... além de obrigar a força e determinação a segurar (ou apontar!) o volante, pois mesmo a velocidades já bem superiores aos limites legais, as rodas traseiras querem redopiar sobre si mesmas e o eixo dianteiro elevar-se da estrada! Feitio e não defeito, intrínseco a tamanha força e determinação mecânica, vincada pelo ADN de performance pura de um super GT e não por uma extraordinária eficácia dinâmica, o que distingue a atitude em estrada e o carisma deste Aston Martin face, por exemplo, ao Porsche 911 Turbo S testado nesta edição.

Experiência única. Pela força, temperamento, performance, requinte, conforto e excelência que resultam de um trabalho de assinatura manual, como a Aston Martin faz questão de reforçar nos badges espalhados pela carroçaria. Neste caso em concreto, representa, ainda, o cruzamento de siglas icónicas da indústria automóvel (DBS e Superleggera) que se encontraram pela primeira vez na Aston Martin em 1967 e que voltaram para criar verdadeiros arrepios na espinha!

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