Vampírico!

Mégane R.S. Trophy à prova na Transalpina e na Transfagarasan

Reportagem

Por José Caetano 25-12-2019 10:00

A Roménia, talvez por desconhecimento, não figura no topo das preferências turísticas dos portugueses, mas o país que comemorou 100 anos em 2018 é merecedor de visita, também pelos adeptos das viagens de automóvel ou dos fãs da condução desportiva… Durante oito dias, ao volante de oito carros, percorremos 2500 km nas estradas de país com muitas atrativos, da cultura à natureza! Na viagem, debaixo de olho, duas estradas, a Transalpina e a Transfagarasan, que percorremos ao volante do Mégane R.S. Trophy...

Mas, antes da condução, a história! A Roménia tem fronteiras com Bulgária, Hungria, Moldávia, Sérvia ou Ucrânia, integra a União Europeia desde 2007, conta com o Leu como moeda oficial e fala língua românica, derivada do latim, como o português. O país estende-se pelos territórios da Dacia, província do Império Romano, e dos principados da Moldávia e da Valáquia. A nação separou-se do Império Otomano em 1877 e, depois do final da I Guerra, ganhou dimensão, com as anexações de Transilvânia, Bucovina e Bessarábia. A localização geográfica, no centro-sudeste do Velho Continente, no norte da península das Balcãs e na costa ocidental do Mar Negro, expuseram-na a conflitos e colocaram-na no olho de diversos furacões que definiram e redefiniram o desenho do mapa nacional.

Recuando apenas até ao Século XX, durante a II Guerra Mundial, após falhanço na tentativa de garantir o estatuto de neutralidade do país, o Rei Carlos II, renunciou ao trono para prevenção de conflitos com os russos, e entregou a liderança do estado ao general Ion Antonescu, que aproximou o país tanto da Alemanha de Adolf Hitler como da Itália de Benito Mussolini, que aproveitaram a abundância de recursos da Roménia (no topo da lista, encontrava-se o petróleo – na década de 1930, era o 2.º maior exportador da Europa e o 7.º do Mundo! –, o que também expôs o país aos bombardeamentos das tropas aliadas.

A Roménia mudou de lado no conflito em 1944, após golpe liderado pelo Rei Miguel I. E caiu nas mãos dos soviéticos. Em 1946, Antonescu foi culpado da morte de 280.000 a 380.000 judeus e 11.000 ciganos. Executaram-no a 9 de outubro. Depois, o Partido Comunista venceu eleições que validaram a ocupação, facto na origem, em 1947, da renúncia ao trono e da proclamação da república popular… A União Soviética manteve-se no território até ao fim da década de 1950, consumindo quase todas as reservas de hidrocarbonetos, sobretudo na região de Ploiesti, 56 km a norte de Bucareste, onde ainda encontramos refinaria ativa. O resto da história conhece-se melhor: em 1965, Nicolae Ceausescu ascendeu ao poder, que exerceu com mão de ferro, com a polícia secreta Securitate a eliminar milhares de inimigos do estado. O ditador disseminou o medo e a miséria. Derrubaram-no e executaram-no na Revolução de 1989.

Entretanto, a Roménia aproximou-se do ocidente, com adesão à NATO (2004) antes da entrada na UE (2007). A crise financeira do final da década de 2000 também penalizou o país, impondo-lhe travagem nos investimentos que explica alguns atrasos, sobretudo nas infraestruturas (a rede de autoestradas tem cerca de 700 km), mesmo tratando-se de país que mantém reservas de petróleo bruto e gás de xisto. Esta independência energética é reforçada pela disponibilidade de central nuclear. Entre os motores da economia do país encontram-se Petrom, Rompetrol, Romgaz e Automobile Dacia, fabricante fundado em 1966 e propriedade do Grupo Renault desde 1999.

No Mégane R.S. Trophy, descobrimos algumas das maravilhas da Roménia… O país tem 20,5 milhões de pessoas, com mais de 500.000 a trabalharem no turismo, setor em expansão – à beleza da paisagem soma-se a riqueza histórica, com castelos, aldeias e cidades medievais na Transilvânia no topo de lista liderada pela Fortaleza de Bran erguida entre 1377 e 1382, quando o príncipe da Valáquia, Vlad III, O Empalador, também conhecido como Drácula, decidiu instalar-se nas margens do Rio Dâmbovita.

Bram Stroker (1847-1912) encontrou aqui a inspiração para a obra-prima que publicou em maio de 1897. O trabalho do romancista irlandês está na origem do mito moderno do vampiro que originou, no Século XX, centenas de peças de teatro e filmes (o mais importante foi produzido pela Universal Studios em 1931 e projetou a popularidade de personagem que existiu apenas na mente do autor...). Curiosamente, Stoker nunca conheceu construção transformada em museu em 1957. É o 2.º edifício privado mais caro do Mundo, com a Forbes a avaliá-lo em 140 milhões de dólares!

Bran encontra-se a 138 km de condução de Sibiu, cidade situada 215 km a noroeste de Bucareste. Capital europeia da cultura em 2007, esta cidade na Transilvânia encontra-se no coração da Roménia, aos pés dos Cárpatos e proporciona-nos acesso privilegiado aos dois destinos da viagem: Transalpina e Transfagarasan.

Condução e paisagens excitantes

Sibiu, cidade de origem medieval, foi a capital da Transilvânia de 1692 a 1791 e 1849 a 1865 e integrou o Império Austro-Húngaro até à I Guerra, encontrando-se no território romeno desde 1920. Foi o nosso quartel-general durante dois dias. No primeiro, deslocámo-nos à Transalpina. No segundo, passagem pela Transfagarasan. O Trophy baseia-se no Chassis Cup do Mégane R.S., compacto com que partillha o motor 1.8 Turbo – na mecânica, intervenção no escape e no turbo responsável por progresso na potência de 280 cv para 300 cv.

De série, o Renault conta com recursos que valorizam a dinâmica na condução, como o autoblocante mecânico do tipo Torsen – otimiza a capacidade de tração – ou o sistema de quatro rodas direcionais 4Control. Na Transalpina, condições ótimas para testarmos as qualidades desportivas do Mégane sobrevitaminado. Esta estrada encontra-se entre as mais altas da Europa, atingindo os 2145 metros acima do nível do mar. A DN67C liga as cidades de Novaci a Sebes, nas montanhas Parâng, com o pico a 2519 m. Construída na época de Carol II (1930-1940) – abandonou-o por ordem de Antonescu, sucedendo-lhe o filho Michael, e exilou-se no Estoril, onde morreu em abril de 1953 –, a estrada foi melhorada no período da ocupação nazi. São 148 km que rasgam florestas e vales, sobem e descem montanhas. Nos meses mais frios do ano, devido à acumulação de gelo e neve, circulação automóvel proibida.

O asfalto da Transalpina encontra-se, maioritariamente, em ótimo estado, após obra de reabilitação iniciada em 2007 e finalizada em 2012. A estrada conduz-nos a estâncias de esqui populares, como o resort de Ranca. Aqui, oportunidade para testarmos o chassis e o motor. O primeiro distingue-se do do Mégane R.S. por dispor de amortecedores, molas ou barras estabilizadoras muito mais firmes, além de travões dianteiros com discos fabricados em alumínio e ferro, combinação de materiais que reduz o peso e aumenta a capacidade de dissipação do calor. Assim, mais potência, maior resistência à fadiga!

A atuação combinada do autoblocante e das quatro rodas direcionais melhoram quer a aderência, quer a agilidade. A mecânica é muito reativa aos movimentos no pedal do acelerador e tem sonoridade expressiva e inebriante, que resulta do funcionamento do escape, específico. A caixa manual tem escalonamento curto que espreme o potencial da mecânica a gasolina e comando mais veloz do que preciso. Infelizmente, alguns troços do percurso encontravam-se demasiado deteriorados, por isso impondo abordagem prudente. Conforto de rolamento? Esqueça-se! As muitas curvas, a maioria cegas, exigem-nos nervos de aço. A quantidade de abismos explica a reputação de temível da Transalpina.

Após noite de repouso em Sibiu, regresso à estrada, desta vez com a Transfagarasan na linha do horizonte. Ainda mais célebre, excitante, exigente, divertida e perigosa do que a Transalpina, a estrada foi construída de 1970 a 1974, por ordem direta de Ceasescu… O ditador assustou-se com a Invasão Soviética da Checoslováquia (1968) e sentiu que o país precisava de ligação entre o norte e o sul pelas montanhas Fagaras, na região sul dos Cárpatos, que assegurasse reação muito rápida a uma intervenção militar externa.

Intransitável entre novembro e junho, também devido ao gelo e à neve, a Transfagarasan liga os picos mais altos da Roménia (Moldoveanu e Negoiu), tem cerca de 90 km de extensão, entre Sibiu e Pitesti e é a estrada com mais túneis e viadutos no país. O ponto mais alto (Lago Bâlea) situa-se a 2042 m. A DN7C foi construída entre a Valáquia e a Transilvânia, por militares, com seis milhões de quilogramas de dinamite, material que desconheciam. Aqui, perderam a vida centenas de homens, mas os números oficiais indicam apenas 40.

Diz-se, também, que esta estrada fez-se apenas para satisfação de capricho de Ceausescu, que sonhava com infraestrutura rodoviária melhor do que a Transalpina. A história não espanta, conhecendo-se o temperamento irascível do ditador. A via foi inaugurada em setembro de 1974, mas a obra de pavimentação prolongou-se até 1980. Se a Transalpina testa os limites do Renault e do condutor, o que dizer dos 22 km a subir e a descer da secção norte, com curva, contracurva, curva, contracurva, curva?!

No modo de condução Race – seleciona-se no monitor tátil do sistema Multi-Sense, ao centro do painel de bordo... –, controlo de estabilidade mais permissivo, motor mais reativo ao pedal do acelerador e condução ainda mais entusiasmante, aproveitando o potencial incrível do Mégane R.S., a falta de policiamento e a borracha que sobrava nos pneus Potenza S001 desenvolvidos à medida pela Bridgestone. Existem mais quatro modos, que ignorámos: Comfort, Normal, Sport e Perso. O compacto da Renault é vampírico no caráter e na voracidade!

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