Renault Clio 'à lupa'

No interior da geração nova do carro mais vendido em Portugal

Reportagem

Por José Caetano 27-07-2019 13:35

O Clio V, comparado com o antecessor, progride menos no exterior do que no interior. A opção da Renault percebe-se facilmente: em 2018, no 6.º ano de carreira do modelo, as vendas ainda aceleravam! No mercado europeu, o automóvel da marca francesa foi o 2.º mais vendido, com 336.268 exemplares, registo que correspondeu a aumento de 2% na procura. Em Portugal, subcompacto n.º 1, quase com o dobro das matrículas do n.º 2 na tabela. Mas, se o sucesso é argumento a favor de abordagens conservadoras e prudentes, a manutenção no topo do segmento B exige atenção às críticas dos clientes e… reação!

A Renault reconheceu-o sempre: coincidindo com período de crise financeira no Velho Continente, o plano de desenvolvimento da 4.ª geração do Clio obrigou a mão cheia de compromissos, ainda maiores devido à necessidade de satisfazer a procura de soluções de personalização. E, assim, recurso excessivo a plásticos, ação muito penalizadora para a perceção de qualidade do automóvel (quer na comparação com os adversários, quer com o antecessor).

Desta vez, confirmam-no os responsáveis da marca, do desenho à produção, progresso na qualidade igual a obsessão, somando-se-lhe, ainda, a sofisticação e a tecnologia que são exigidas aos carros mais modernos. Por isso o Clio V estreia o Smart Cockpit (traduzindo-o literalmente, habitáculo inteligente!), onde sobressai o monitor digital de 9,3’’, a cores e tátil, no centro do painel, na vertical. Os franceses não deixaram pedra sobre pedra e mudaram os desenhos de tudo, dos comandos às saídas da climatização, da consola ao volante. No entanto, esta intervenção não penalizou a possibilidade de personalização, que também melhorou…

Mas, muito mais do que as impressões que registámos no primeiro contato com o Clio V, importa ouvir as razões por trás da revolução, explicadas a AUTO FOCO pelo homem que liderou o processo de conceção, Antoine Genin, vice-presidente do Design Interior da Renault. Uma entrevista realizada dentro do habitáculo do modelo novo…

P. – Observando o Clio V, registo uma evolução no desenho exterior e uma revolução no interior. Concorda? Se sim, qual a razão por trás desta opção?

 

R. – Exatamente. Focámo-nos muito no interior… O modelo atual continua a vender-se muito bem na Europa e temos de capitalizar esse sucesso, considerando, também, que o desenho não está datado, continua atual. Em contrapartida, no habitáculo, tivemos o cuidado de ouvir os clientes para melhorá-lo. Pensámo-lo do zero, a partir de folha em branco, com o objetivo de acrescentar-lhe valor e, sobretudo, tecnologia.

 

P. – O Clio IV, na comparação com o antecessor, regrediu na perceção da qualidade… Tratando-se de uma opção deliberada, quais foram os objetivos? E, agora, no Renault Clio V, o que fizeram de novo?

 

R. – Tem razão, outra vez. Quando arrancámos com o desenvolvimento da 4.ª geração, a nossa prioridade era a criação de desenho excitante, impactante. Agora, alinhámos o interior com o exterior. A arquitetura do habitáculo é toda nova, temos materiais mais suaves, menos plásticos, e encontramos tecnologias invulgares em carros do segmento B, que colocam o Clio V dentro da era da digitalização do automóvel. O recurso a linhas horizontais, complementarmente, garante sensação de aumento da largura do carro, o que melhora as sensações de bem-estar e conforto no habitáculo. O Clio era incrível na qualidade, mas a imagem da carroçaria, tenho de reconhecê-lo, era demasiado banal.

 

P. – Atualmente, os construtores trabalham com custos muito controlados. É possível melhorar muito a qualidade, aproximando-a de um nível ‘premium’, sem gastar mais dinheiro?

 

R. – Existem sempre compromissos quando desenvolvemos modelos novos, mas temos de fazer escolhas inteligentes, poupando aqui para gastar ali. Repare, por exemplo, nas dimensões do monitor que posicionámos verticalmente no centro da consola central. É equipamento diferenciador no segmento B. Nem o Espace e o Talisman têm ecrãs tão grandes. Valoriza a apresentação e melhora o acesso às principais funções do automóvel.

 

P. – As dimensões do Clio V mudam pouco, mas este interior parece maior que o do modelo em final de carreira. Confirma esse programa ou trata-se de uma ilusão?

 

R. – As quotas do interior aumentaram, independentemente da carroçaria compacta. É por isso que falamos tanto no conceito de Smart Cockpit, de habitáculo inteligente. No Clio V, conseguimo- lo, por exemplo, reduzindo as dimensões dos bancos, que são mais pequenos do que no passado, mesmo proporcionando mais conforto e melhores apoios. As soluções que estreámos aqui aplicar-se-ão noutros automóveis novos, no curto prazo.

 

P. – Imagino que a eletrificação do automóvel alargue os horizontes dos designers, garantindo-lhes mais liberdade. Como antecipa o futuro próximo?

R. – No design, pensamos sempre no futuro, na próxima geração de qualquer modelo. A eletrificação do automóvel cria-nos muitas possibilidades. É verdade que precisamos de arrumar as baterias, mas a tecnologia liberta espaço no interior e permite repensar a arquitetura do habitáculo. Encontro mais vantagens do que desvantagens. Acontece o mesmo com a introdução das tecnologias de condução autónoma.

Revolução

A Renault, revelando sensibilidade à crítica, mudou a apresentação do ‘cockpit’ do Clio e fê-lo profundamente, melhorando tudo, da apresentação à qualidade dos materiais e da montagem, o que explica, também, o progresso notável na perceção de qualidade… O volante é multifunções, mas mantém-se o ‘satélite’ que controla o rádio. O painel de instrumentos digital (7 ou 10’’) acrescenta modernidade, tal como o monitor de 9,3’’ no centro do ‘tablier’ (nem Espace e Talisman têm ecrãs tão grandes: só 8,7’’!), que é a base da tecnologia de info-entretenimento Easy Link. Também entre as novidades, sistema de carregamento por indução de ‘smartphones’ e seletor da caixa sobrelevado.

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