Conduzir o mito

De Mulhouse a Genebra ao volante do histórico 205

Reportagem

Por Vítor Mendes da Silva 23-06-2019 12:06

Nos idos 80, o 205 foi o maior responsável por importante reviravolta na história da Peugeot, pois reabilitou a imagem e recolocou a marca no topo das preferências dos europeus. Com o aparecimento do compacto, a firma do leão, então apontada como o mais tradicional dos três grandes fabricantes franceses, ganhou fôlego.

O modelo foi apresentado aos concessionários em janeiro de 1983, no Mónaco, e entrou em comercialização no mês seguinte, conseguindo êxito quase imediato, enchendo rapidamente os cofres do Grupo PSA. Nenhuma dúvida: o 205 salvou a sua marca.

Em Portugal foi também fenómeno de popularidade tremendo. Para tantos da minha geração, um número sagrado: o meu primeiro carro foi um pequeno e muito usado 205 GR, o Alentejano; o meu primeiro objeto de culto foi o Rallye do miúdo da frente... Aquele pequeno desportivo tinha sangue na guelra. Sob o capot, o motor 1.3 preparado pela Danielson a pedido do departamento de competição da Peugeot, a Talbot Sport, debitava… 103 cv. Era motivo de conversas para toda a rapaziada da rua e, por isso, o miúdo da frente era provavelmente o rapaz mais popular do bairro, famoso entre as miúdas mais giras. Era o carro, de certeza.

Agora, a Peugeot quer que a aura deste clássico perdure de alguma forma no novo 208. Assume-o assim: exclusivo desfile de compactos históricos, impecavelmente mantidos, em caravana das instalações que a PSA detém na localidade francesa de Mulhouse, em direção aos pavilhões do salão automóvel de Genebra, na Suíça. O objetivo era valorizar, ao volante, o antagonismo entre o que se conhece já do novinho Peugeot 208 e o saudoso 205. Estivemos entre os convidados e, em ritmo de passeio, percebemos que esta velha glória da marca francesa está aí para as curvas. Mais ruga, menos ruga...

Terá o novo promissor Peugeot argumentos para se tornar também um clássico como o seu antepassado? Só o tempo dirá, mas uma coisa é certa: é pesadíssima a herança!

Esteticamente, o 205 estabeleceu parâmetros que inspiraram todos os automóveis que a Peugeot lançou nos anos seguintes. O design concebido por Gerard Welter, também envolvido nos programas de criação dos modelos 206 e 207, manteve-se praticamente inalterado ao longo dos 15 anos de produção. As exceções: o tablier foi redesenhado em 1987 e o facelift realizado no final de 1990 mudou o aspeto das portas, dos piscas e das luzes dos travões. O ritmo de montagem só abrandou quando surgiram o 106 e o 306, o primeiro (ainda) mais compacto, o segundo maior. Depois, a erosão provocada pelo tempo e as novas exigências do mercado forçaram a Peugeot a preparar sucessor direto. E o 206 lançado em 1998 confirmou o caráter quase sagrado da série 200...

Na senda do sucesso

Em sete anos (1998-2005), a Peugeot fabricou quase 5 milhões e 250 mil unidades do 206, suplantando o recorde de exemplares produzidos que pertencia ao seu antecessor, com 5 milhões e 278 mil carros feitos no... dobro do tempo (1983-1998)! Proposto em diversas carroçarias (berlinas compactas de 3 e 5 portas, SW e coupé-cabriolet), o 206 foi, em 2002, o modelo mais vendido na Europa (e o principal best-seller do segmento B entre 2001 a 2004!), tendo permanecido muito tempo entre os três automóveis mais vendidos no Velho Continente. Em Portugal, onde também registou excelente carreira comercial, foram entregues 118.240. Se o sucessor 207, como a primeira geração 208 tivessem sabido acompanhar o ritmo...

Mas voltemos à estrada, agora aos comandos de um lindíssimo 205 Lacoste de 85, um original de encher olho, com motor 1.4, a debitar honestos 60 cv, associado a caixa manual de 5 velocidades, fácil de manusear. Um luxo. No 205 Champion 1.1 que também está no grupo a caixa é de 4...

Segundo os critérios atuais, o 205 é um citadino. Com apenas 3,71 m apetece levá-lo ao colo para o proteger dos gigantes que nos fazem estremecer na autoestrada para Genebra. Passam por nós parecemos parados... O motor de 1,4 litros puxa sem ruído, mas sem vida. A baixa linha de cintura da carroçaria permite ampla visibilidade, mas também forte sensação de desproteção. Mesmo assim, interessante compromisso entre conforto, segurança e competência dinâmica. Por respeito ao proprietário, não por falta de confiança nas capacidades do automóvel, o 205 foi conduzido em ritmo de passeio. Nota-se-lhe a falta de direção assistida, mas a missão foi bem sucedida, pois a adaptação revelou-se fácil nos cerca de 400 km percorridos sem percalços. Chegamos… ao futuro.

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