Perseguição na ilha dos loucos

Ao volante da edição Bullitt do ‘muscle car’ na Ilha de Man

Reportagem

Por Ricardo Jorge Costa 06-01-2019 12:45

O Bullitt não vem para Portugal. Infelizmente, não o teremos…», diz-nos com algum desencanto a diretora de comunicação da Ford Portugal, Anabela Correia, referindo-se à edição - «demasiado limitada », justifica esta responsável daquela empresa - do novo Mustang, que celebra este ano o 50.º aniversário da participação do antecessor deste modelo, GTA 390 Fastback, na célebre perseguição no filme policial Bullitt de 1968, protagonizado por Steve McQueen.

A película realizada por Peter Yates celebrizou-se pela mencionada cena de perseguição de automóveis nas colinas de San Francisco, que revolucionou a forma e o realismo com que Hollywood passou a abordar as cenas de perseguições no grande ecrã. A mestria de Yates e da sua equipa estendeu-se à escolha do carro do ator principal, Steve McQueen, um apreciador e colecionador inveterado de automóveis, especialmente de desportivos, e teve como consequência a elevação a ícone do Mustang GTA 390.

Em 2018, meio século volvido da estreia de Bullitt e da participação do Mustang neste filme, a Ford aproveita a efeméride para promover as vendas da renovação da 6.ª geração (de 2015) do seu muscle car, para lançar uma edição especial com o nome daquela longa metragem. Além dos Estados Unidos, o Mustang Bullitt está disponível nos principais mercados europeus por encomenda (português excluído), com versão otimizada do motor V8 atmosférico de 5 litros do GT Fastback (coupé), com 460 cv (mais 10 cv) e 530 Nm, caixa manual de 6 velocidades e transmissão ao eixo traseiro.

Apenas duas cores de carroçaria, exclusivas, para a edição limitada: verde Dark Highland Green – a remeter para a pintura do(s) Mustang GT 390 utilizado(s) em Bullitt; foram várias unidades na rodagem do filme (ver caixa) – e preto Shadow Black. Na grelha, toda negra, suprime-se o lendário cavalo selvagem que é símbolo do modelo e a única referência no exterior à série especial é uma aplicação redonda ao centro da porta da bagageira. As jantes, de 19 polegadas, pretendem recriar as do carro do filme, com design retro exclusivo (Torq Thrust) e deixam observar-se as pinças dos travões pintadas a vermelho.

No interior, destacam-se, da versão convencional GT do Mustang Fastback, o punho do seletor da caixa de velocidade, em igualmente clássica cor branca e esférica, o volante com o logótipo da versão Bullitt, a consola com placa numerada da unidade, e os bancos desportivos em pele negra Recaro com costuras em verde e ainda sistema de som Bang&Olufsen com 12 altifalantes.

Quase um ano após a estreia no Salão de Detroit, em janeiro, o Mustang Bullitt atravessou o Atlântico e instalou-se na Europa, à procura do seu espaço no território dominado por alemães e italianos. Um muscle car está fora do seu habitat, mas Mustang é um símbolo global, uma marca dentro da Ford, nada tem a recear perante a concorrência dos desportivos de Porsche, Mercedes, BMW, Ferrari e Lamborghini. Para demonstrar a abrangência e o carácter destemido do Bullitt, a Ford Europa levou-o à britânica Ilha de Man, conhecida no mundo do desporto pela célebre competição de motociclismo em estradas públicas, Tourist Trophy (TT). Onde pilotos também desafiam os limites da sua coragem e talento e as performances das suas máquinas de duas rodas em prova com condições de segurança mínimas. Tal como Steve McQueen, na pele do detetive Frank Bullitt, no filme homónimo, ao volante do Mustang, na famosa perseguição de automóveis.

Nas estradas sinuosas e de relevo ondulado do Mountain Course, o traçado do TT, um dos troços mais estimulantes do velho Continente para conduzir, foram cenário privilegiado para o Mustang Bullitt mostrar argumento(s).

Aos comandos do desportivo da Ford, instalado no banco do tipo baquet Recaro, o jornalista inglês Steve Sutcliffe, segura firmemente o volante, guiando-o como se fosse sobre carris, pelos encadeamentos de curvas destas estradas sem limite de velocidade - embora prevaleça no regulamento do trânsito desta ilha uma regra que penaliza a condução «descuidada ou perigosa».

«Imagine as autobahns alemãs com colinas e curvas fechadas e reduza-as a uma única via envolta em paisagens incríveis de cortar a respiração», descreve Sutcliffe, enquanto atravessa o Mustang Bullit num vistoso drift. «É o que estes muscle cars têm e que os europeus só agora começam a ter... artificialmente », diz o jornalista. «Conduzir o Mustang numa estrada com o misticismo do Mountain Course é uma experiência única e imperdível», acrescenta. O percurso tem 219 curvas e atravessa localidades e estradas nacionais da ilha localizada entre a Irlanda e o Reino Unido. «Um automóvel cheio de drama num cenário dramático. Épico! », declara Sutcliffe, arrancando a fundo o Bullitt numa longa reta.

Os 10 cv adicionais do motor V8 5.0 foram obtidos com a montagem da admissão de ar do Shelby GT350, de borboleta de admissão de maior diâmetro e modificações na gestão eletrónica. Apesar da intervenção, mantêm-se as performances da versão GT de 450 cv: 0-100 km/h em 4,6 segundos e 263 km/h de velocidade máxima. Retorno ao traçado sinuoso em direção ao ponto mais alto da ilha, onde se pode observar os quatro países que compõem o Reino Unido: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. «Vale a pena baixar por momentos o ímpeto do cavalo selvagem e apreciar a paisagem incrível». Mas apenas por isso, porque o Mustang é incansável.

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