’Acampámos’ com o Tim dos Xutos & Pontapés

A minha casinha

Reportagem

Por João da Silva 25-12-2018 15:00

Fotos: Gonçalo Martins

Quando chegámos à Foz do Arelho, o dia estava ainda um pouco murcho e apenas as gaivotas pisavam o areal. O vento fresco que soprava do mar pedia um agasalho ou abrigo, pelo que decidimos avançar um pouco pelo interior até à mais abrigada Lagoa de Óbidos. Ainda a boa distância, começámos a ouvir o som de uma viola, mas nas proximidades apenas víamos um pescador e um belíssimo pão-de-forma estacionado no areal. À medida que nos aproximávamos, os acordes tornavam-se mais fortes, tornando-se evidente que alguém tocava viola do outro lado da caravana. Parqueámos a Nissan NV300 Camper e o Mini Countryman no areal, e fomos descobrir quem tocava...

«Olá Tim! Podemos juntar-nos a ti?» «Claro que sim!», respondeu-me. «Isto é que é vida, hein?» «Verdade, sempre que tenho algum tempinho livre na agenda, gosto de pegar no pão-de-forma e vir dar uma volta.» «Já o tens há muito tempo?» «Sim, comprei-o em 1996. Estava estacionado à porta do antigo Cinema Império, que ainda era cinema Império, ainda não era da Igreja Universal do Reino de Deus, e custou-me 200 contos. Cheguei lá para o ver às 10 e meia da noite e às 11 estava comprado! Era baratucho, andava e tocava à buzina! Atrás só tinha um banco corrido, ou seja, deitando-o ficavas com uma plataforma lá atrás para dormir, mas era só mesmo isso. Depois, com a ajuda do meu pai, fiz um móvel lá para trás para arrumar coisas.»

Olhando para o pão-de-forma do Tim facilmente se percebe que há ali muito trabalho. «Pelo que vejo, mudou bastante em relação ao que era...». «Pois, a certa altura começou a ficar com muita ferrugem e era preciso fazer alguma coisa. Há quatro anos, fui a uma oficina onde fazem esse tipo de trabalhos e decidimos levar isto tudo ao osso, o mais que podíamos, a chapa, tudo. Além disso, tentámos pôr tudo novo, só ficou a carcaça. Começámos por pôr um revestimento no chão, para não estragar o piso original. Depois, montámos mais alguns móveis, nomeadamente o móvel lateral, que é uma solução semelhante à que existe na VW Califórnia, por exemplo.»

«E como começaram as aventuras de dormir lá dentro?» «Bom, comecei por acampar com os meus filhos. Normalmente, as viagens que gostávamos mais de fazer eram lá para baixo para o Algarve, Salema, Lagos, Vila do Bispo, e habitualmente ficávamos em parques de campismo. É que depois de uma pessoa andar dois ou três dias na estrada, quer tomar um duche e estar mais à vontade, com mais segurança e verificar as coisas e tal, e é sempre bom parar num parque. Agora até paro muito mais fora dos parques, porque o carro está muito melhor preparado. Consigo, por exemplo, fechar tudo muito bem à noite, o que dá mais segurança. Além de que agora já se vê muita gente a dormir em parques de estacionamento. Basta fazer a costa para perceber isso. Eu já fiz a costa portuguesa toda, de Sagres a Moledo, e agora já não há tanto receio de parar o carro em qualquer lado para dormir. Não posso dizer que tenha alguma vez tido muito medo, mas como há muita gente agora, é ainda melhor, até porque a malta das autocaravanas acaba por fazer assim uma espécie de comunidade.»

«Mas há muitas caravanas assim como a tua? Costumo ver mais autocaravanas das grandes!» «Mais ou menos. Ainda no outro dia estive em Monsaraz, num dos parques que há lá agora, mesmo para caravanas, e havia uma caravana que trazia um Citroën Mehari atrelado! Mas com isto conseguimos parar mesmo no meio da cidade. Por exemplo, podes chegar a um parque no centro da cidade, como eu já fiz em Espanha, parar num parque qualquer, tirar um bilhete e pronto, dormes ali tranquilamente.»

«E fica a estadia muito mais barata. Então e sobre as soluções que aqui temos, a Nissan NV e a tenda do Mini Countryman?» «Acho que são muito interessantes, porque tu podes entrar numa cidade com um carro destes e desde que não abras o teto, é considerado um veículo comum. Se abrires o teto ou quando o teto é sobrelevado, já é considerada uma autocaravana e aí já tem limitações.» «Não sabia...» «Há muita gente que não sabe. E mesmo com um carro destes, quando abres a barraca no meio de uma cidade, podem não deixar e mandar-te para o parque. Mas as autocaravanas têm outras vantagens, outros recursos, podes levar uma bicicleta, uma moto ou até um Mercedes SLK, como eu vi uma vez um a sair de uma autocaravana através de uma plataforma que ia para o lado. Era fantástico! Só faltava ter piscina!»

«E a logística disto? Dá trabalho?»  «Se esqueceres que se trata de um carro antigo, tudo o resto é simples: leva uma bilha de gás, dois depósitos de água, tem lavatório, tem frigorífico, fogão, despensa, essas coisas todas. Agora a logística é assim: quando é para viajar, está tudo arrumado, quando paramos, se é só para um lanche, não se desarruma muito, se é para ficar para dormir, temos que fechar as coisas todas, a cama abre, fica uma casinha lá dentro e estás à vontade. Portanto, a logística é essa. Depois, associado a isso, como é um carro de 1964, anda devagarinho, de vez em quando tem uns problemas de embraiagem, agora também está a travar mais de um lado do que doutro, mas tirando isso está tudo bem.» «Fazer isto é um estado de espírito, não é?» «Claro que sim e no meu caso é uma parvoíce também, porque eu passo a vida enfiado em carrinhas e a última coisa que devia querer fazer na vida era passar férias enfiado em carrinhas. Mas gosto, porque gosto muito de viajar. Gosto de ir devagarinho, gosto de conhecer as estradas. Com este pão de forma acho que só me falta fazer Monção, Vinhais e subir a Serra da Estrela, de resto já fiz tudo cá em Portugal, cerca de 37 mil quilómetros.

E também fui a Espanha, ali para os lados de Tarifa, e algumas terras ali à volta.» «É um vício?» «Mais ou menos. Um buraquinho na agenda de dois ou três dias e um gajo vai dar uma volta. Desde que haja dinheiro para a gasolina! De resto, se uma pessoa não quiser fazer viagens muito rápidas, este pão-de-forma velhote é tão bom como as novas carrinhas, porque o que interessa é o que vai lá dentro e sobretudo uma pessoa chegar aos sítios e divertir-se!» «E chegaste a ir a festivais de verão com ele?» «Sim, fui a um ou dois. Eu gostava de ir com isto para os camarins. Fazia a viagem e depois estava lá enquanto não acontecia nada, mas depois ia na mesma para os hotéis com os outros. Mas ir sempre no pão-de-forma quando vou trabalhar é complicado, pois os horários são muito apertados e isto pode fazer-me atrasar meio dia. Se se parte um cabo ou outra coisa qualquer é uma chatice.» «Para acabar, satisfaz-me a curiosidade: quando vais de férias no pão de forma, tens saudades da tua casinha?» «Ahahahah, não, não tenho! Já tenho este pão-de-forma há 20 anos, também já é a minha casinha!»

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