Audi leva e-tron a Pikes Peak

O outro 'sentido' da montanha mítica

Reportagem

Por Ricardo Jorge Costa 30-09-2018 16:00

Cume de Pikes Peak, Montanhas Rochosas, no Colorado, Estados Unidos. Vinte quilómetros com 156 curvas. Altitude na partida: 4302 metros; altitude na meta: 2862 metros. Desnível acumulado: 1440 metros.

O que é que nesta descrição soa mal, que não corresponde à rampa mais famosa do desporto automóvel, dos mais célebres recordes em montanha? Já se deve ter percebido. É a inversão do traçado. Declive e não proclive. Uma competição em Pikes Peak, a descer, só se for de ciclismo, talvez downhill.

Mas nesta ocasião os protagonistas continuam a ser os carros, e tão elétricos como o impressionante Volkswagen I.D. R que recentemente pulverizou o recorde… da subida. E também protótipos como este. É uma caravana de Audi e-tron, o primeiro SUV totalmente elétrico do fabricante alemão, que será apresentado oficialmente no dia 17 de setembro, em San Francisco, a 2170 km de distância deste local.

Todavia, a corrida não é por vitórias ou pelo melhor tempo. O que conta é a regeneração de energia da travagem. Acumulá-la o mais possível para injetá-la na bateria, o que significa mais autonomia, fundamental para um automóvel elétrico. Embora o objetivo para os condutores dos protótipos do e-tron seja tocar o menos possível nos travões. Parece estranho. Expliquemos.

A Audi esteve em Pikes Peak a testar a sofisticada tecnologia de travagem regenerativa do futuro crossover, que contribui para até 30% da autonomia total do veículo (anunciados 400 km com uma carga da bateria, no novo ciclo WLTP), acrescentando um quilómetro de autonomia por cada quilómetro percorrido em descida. Mas como, sem travar? Envolvendo os dois motores elétricos do e-tron e o inovador sistema de controlo de travagem integrado eletro-hidráulico.

Pela primeira vez, combinam-se três modos de recuperação de energia: manual, através da função coasting (velejar) com recurso a patilhas no volante; automática, com a mesma função em que o veículo rola sem aceleração apoiada por sensores de radar, imagens de câmara, dados de navegação e informações Car-to-X para detetar as condições do trânsito e a rota; e com a transição entre a desaceleração através do motor elétrico ou do travão convencional ou ainda os dois, de forma impercetível ao condutor. Segundo a Audi, com forças de desaceleração até 0.3 g, o e-tron regenera energia apenas com os motores elétricos, sem recurso aos travões convencionais – o que corresponde a mais de 90% de todas as desacelerações. Os travões das rodas intervêm apenas quando o condutor pressiona o pedal com força superior a 0.3 g. Um pistão hidráulico no módulo de travão gera pressão adicional, também para otimizar as travagens de emergência, garantindo que somente 150 milissegundos medeiem o início da desaceleração e a pressão máxima das pastilhas nos discos. A Audi refere que a distância de travagem reduz-se até 20% comparando com os travões convencionais.

Para experimentar (e apresentar ao público, através da comunicação social) a inédita tecnologia, em condições reais e tão exigentes quanto a longa e íngreme descida de Pikes Peak, a Audi levou uma frota de e-tron àquela inóspita paragem no território norte-americano, declarando que os protótipos do SUV foram capazes de descer os sinuosos 20 km com mais de centena e meia de curvas daquela montanha sem praticamente utilizarem-se os travões convencionais, e que no final do trajeto o inovador sistema de recuperação de energia carregou com mais 6,8 kWh a bateria (de 95 kWh de capacidade) de cada veículo. O fabricante de Ingolstadt revelou, ainda, que devido aos travões de roda serem tão raramente acionados, teve de desenvolver um dispositivo de limpeza automática dos discos de aço incorporado, para assegurar estes não enferrujam.

O fascinante novo mundo da eletrificação do automóvel não se resume à eficiência energética, mas também às performances. Os motores elétricos do e-tron desenvolvem uma potência total de 360 cv (265 kW) e 561 Nm de binário constantes até 60 segundos, permitindo ao SUV acelerar de 0-200 km/h (velocidade máxima limitada ) várias vezes consecutivas, sem perdas de energia. Aquele binário máximo atinge-se em frações de segundo. Ao passar o seletor central, da posição D para S e pressionar a fundo o pedal do lado direito, o condutor ativa, ainda, o modo boost, disponível durante oito segundos e que eleva o débito energético dos motores elétricos até 408 cv (300 kW) e 664 Nm, gerando uma força motriz que garante ao Audi e-tron acelerar de 0-100 km/h em menos de seis segundos. Prestações dignas de um desportivo. E que tão bem serviria, então, para subir Pikes Peak.

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