Fiat 500C La Prima vs Mini Cooper SE

Mudam-se os tempos…

CONFRONTO

Por Vítor Mendes da Silva 13-03-2022 07:00

Fotos: Gonçalo Martins

Na Fiat e na Mini, os sucessores dos icónicos clássicos de três portas, originalmente lançados nos idos anos 50, seguiram a ordem natural das coisas: tornaram-se elétricos. Porque os tempos são de mudança de paradigma no automóvel, baterias em vez de motores térmicos a gasolina e gasóleo para condução sem emissões de gases de escape.

Todas as marcas de primeiro plano na indústria automóvel participam, de forma muito ativa, na corrida à eletrificação (rápida) do automóvel. E a Fiat prometeu que não iria atrasar-se. Demorou a concluir a sua abordagem ao tema da mobilidade limpa, mas acertou em cheio, com automóvel entusiasmante, ágil em cidade e tão dinâmico que apetece conduzir para fora da malha urbana.

É verdade que o valor médio de autonomia, a rondar os 200 km, não permite que se estiquem demasiado os trajetos ou o ritmo da condução, mas o elétrico retro italiano é produto pensado com outro propósito: o de corresponder às exigências de clientela que procura no automóvel o derradeiro gadget tecnológico.

Testámos o Cabrio, que dispõe do mesmo motor elétrico com 118 cv das demais carroçarias e bateria de iões de lítio com 42 kWh de capacidade total. A versão ensaiada, La Prima, tem decoração exclusiva para a carroçaria e no habitáculo, com muito menos comandos físicos, mais compartimentos para arrumação de objetos e mão cheia de detalhes inovadores, vide os botões que servem para abrir e fechar as portas, em vez dos puxadores convencionais.

Filosofia ligeiramente diferente procurou seguir a Mini, mais preocupada em tentar assegurar que o mais urbano dos seus automóveis não degenera à herança do fabricante, criada quase exclusivamente a combustão, com a primazia ao feeling da condução, e na atitude ao volante. Apesar de todas as derivações da nova geração Mini, sob a égide do Grupo BMW, os Mini continuaram a ser, como em tempos idos do modelo original, dinâmicos e divertidos – sem referir o mérito na recriação do design.

Tirando o logo amarelo na grelha frontal (fechada e específica) e, talvez, as jantes de desenho exclusivo, o Mini elétrico é praticamente um decalque dos primos com motores térmicos, incluindo na forma como está arrumado o painel de bordo, com enorme profusão de comandos e pequenos botões. O carro britânico também puxa mais pela condução típica dos elétricos, que privilegia o aproveitamento da eficiência do veículo, o que está longe de ser um defeito num Mini. Mas paga-se na fatura da eletricidade. Literalmente…

Autonomia otimista

O ruído, obrigatório para peões, é criado artificialmente e também se estranha. Arrumada sob o piso está bateria de iões de lítio com capacidade aproveitável de 28,9 kWh (32,6 kWh no total) para uma autonomia anunciada de 234 km entre carregamentos, segundo o ciclo de medições de consumo WLTP. Cifra que não parecendo suficiente para um automóvel com qualquer tipo de pretensões estradistas, ainda é otimista…

Com o recurso à tecnologia afeta à motorização elétrica, nomeadamente aos modos mais ecológicos do programa de condução, Green e Green+, em que a recuperação de energia das travagens e desacelerações é superior, mas com o comprometimento de equipamentos de conforto, como o ar condicionado, no caso do segundo, podemos aspirar a realizar mais de 180 km com uma carga de bateria. Conduzindo-se nos modos Mid e Sport retira-se o melhor rendimento do motor de 184 cv e 270 Nm disponíveis desde o arranque. Ou seja, sendo automóvel elétrico, silencioso e não poluente, mantém a emotividade na condução que deu fama à marca britânica. E só o posicionamento de preço premium pode travar maiores ambições. O Mini elétrico está disponível no mercado nacional desde 34 mil euros, que é o valor pedido para a versão base.

Não são muito diferentes os preços do 500, que é também automóvel muito cativante em matéria de apresentação e de imagem. O equipamento multimédia tem ecrã de 10,25’’ e admite conectividade com Apple CarPlay e Android Auto. A climatização tem comandos independentes abaixo do ecrã digital no centro do painel de bordo e acima dos seletores dos programas de atuação da caixa de velocidades.

Um Sherpa na cidade

Na consola entre os bancos dianteiros do citadino transalpino, à direita, elegem-se os três programas de condução: Normal, Range e Sherpa. Os modos de ação diferenciam-se pela capacidade de retenção do motor elétrico, maior no Range ou no Sherpa. No Normal, esta função encontra-se indisponível, com o 500 a movimentar-se só pela inércia a partir do momento em que o condutor retira o pé do acelerador. No segundo, conduz-se, muito facilmente, sem recurso ao travão. No terceiro, otimiza-se a autonomia, quer limitando a velocidade máxima apenas a 80 km/h, quer parando a atuação da climatização e do aquecimento dos bancos ou diminuindo a reatividade do acelerador. Dispondo apenas de 24 km de carga na bateria de iões de lítio, automaticamente, ativa-se outro programa, o Tortuga, que limita a potência e bloqueia o consumo elétrico de todos os componentes não essenciais do automóvel.

No Fiat 500, as baterias estão arrumadas debaixo do piso do habitáculo, posicionamento que baixa o centro de gravidade e beneficia a repartição do peso entre os eixos, características com impacto muito positivo no desempenho de citadino que acelera de 0 a 100 km/h em 9 segundos e convence pelo comportamento equilibrado e preciso. Dinamicamente, o 500 não está ao nível do Mini Cooper SE. Mas tem um trunfo chamado autonomia.

No Fiat, obviamente, a mesma lógica: a autonomia estica ou encolhe de acordo com o tipo de percurso e o estilo de condução. E se o carro italiano seduz ao servir condução com bons níveis de conforto, com as suas dimensões de palmo e meio e o diâmetro de viragem que o tornam peixe na água em cidade, além de um viciante silvo que acompanha o funcionamento do motor em aceleração, perceba-se que o pé demasiado pesado sobre o pedal da direita faz com que a autonomia estimada se esfume. A marca anuncia 430 km de autonomia para o elétrico em ciclo urbana, distância que nunca conseguimos alcançar.

Guiámos muitas horas em cidade, com o computador de bordo a marca um consumo de 12,3 kWh/100 km, o que permite pensar numa autonomia real a rondar os 300 km, com os devidos cuidados. É_muito mais do que conseguimos percorrer com uma só carga de bateria no Mini e mais do triplo do que a maioria das pessoas faz por dia.

Tudo somado, a experiência com o novo Fiat 500 mostrou-nos um elétrico entusiasmante, com credenciais dinâmicas bem à altura dos pergaminhos de um fabricante que tem no seu portefólio citadinos de culto. Isso não quer dizer, contudo, que nos convenceu tudo o que vimos ou experimentámos. Como são as pouco funcionais medidas do compartimento da mala, por exemplo, que complica no dia-a-dia, sem que se ganhe muito na habitabilidade traseira, pois os ocupantes dos dois (únicos) lugares posteriores também não dispõem de fartura de centímetros em nenhuma das direções.

Mas o Mini Cooper SE não faz melhor. Como espaço é algo que não abunda na carroçaria 3 Portas do Mini (a única escolhida para a eletrificação), a bateria está alojada sob o habitáculo, em forma de T, não beliscando o já de si curto espaço para passageiros no banco traseiro ou mala. Esta, com 211 litros, aloja os cabos de carregamento sob o alçapão. A característica mais diferenciadora da carroçaria do elétrico será a elevação em 18 mm da altura ao solo, de forma a melhor preservar o berço da bateria.

Nos dois modelos, o carregamento numa tomada doméstica é muito demorado (no Fiat, o ritmo é de 14 km de autonomia por hora...). Todavia, a sua bateria também admite carregamentos na rede pública, de corrente contínua, à potência máxima de 85 kW. Assim, 100% da energia em 35 minutos – o Mini admite um máximo de 50 kW.

Na corrida à democratização do automóvel do futuro, conectado e elétrico, a Fiat tenta agora chegar-se à linha da frente com a versão elétrica do citadino ícone da marca. Também a marca inglesa merece elogio no cumprimento da promessa da conversão dos seus automóveis, mantendo viva a herança desportiva do fabricante. Mais prático, funcional e utilizável na lufa-lufa de todos os dias nas grandes urbes o 500; mais reativo e divertido de levar por estradas com muitas curvas o Cooper SE.

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Ficha Técnica

Características

FIAT 500

C La Prima

MINI Cooper

SE

Motor
Tipo Elétrico, síncrono Elétrico, síncrono
Potência 118 184 cv
Binário 220 270 Nm
Bateria Iões de lítio Iões de lítio
Capacidade útil 37,3 kWh 28,9 kWh
Tempo de carga (0-80%) - -
Transmissão
Tração Dianteira Dianteira
Caixa de velocidades Automática de 1 vel. Automática de 1 vel.
Chassis
Suspensão F Ind. McPherson Ind. McPherson
Suspensão T Eixo de torção Ind. multibraços
Travões F/T Discos ventilados/tambores Discos ventilados/Discos
Direção/Diâmetro de viragem Elétrica/9,7 m Elétrica/10,7 m
Dimensões e Capacidades
Compr./Largura/Altura 3,632/1,683/1,527 m 3,845/1,727/1,432 m
Distância entre eixos 2,322 m 2,495 m
Mala 185 litros 211-731 litros
Depósito de combustível - -
Pneus F 6,5jx16-205/45 R17 6.5jx16-195/55 R16
Pneus T 6,5jx16-205/45 R17 6.5jx16-195/55 R16
Peso 1480 kg 1440 kg
Relação peso/potência 12,5 kg/cv 7,8 kg/cv
Prestações e consumos oficiais
Vel. máxima 150 km/h 150 km/h
Acel. 0-100 km/h 9 s 7,3 s
Consumo médio 13,3 kWh/100 km 15,5 kWh/100 km
Autonomia 298 234
Garantias/Manutenção
Mecânica 4 anos sem limite de km 2 anos sem limite de km
Pintura/Corrosão 3/12 anos 3/12 anos
Bateria 30000 30000
Imposto de circulação (IUC) 0 € 0 €

Medições

FIAT

Acelerações
0-50 km/h 3,1 s
0-100 / 130 km/h 8,8/14,9 s
0-400 / 0-1000 m 16,6/30,4 s
Recuperações
40-80 km/h (D) 3,2 s
60-100 km/h (D) 4,6 s
80-120 km/h (D) 6,2 s
Travagem
100-0/50-0km/h 35,8/9,5 m
Consumos
Consumo médio 13,3 kWh/100km
Autonomia 290 km

Medições

MINI

Acelerações
0-50 km/h 2,8 s
0-100 / 130 km/h 6,7/10,8 s
0-400 / 0-1000 m 15,0/29,4 s
Recuperações
40-80 km/h (D) 2,6 s
60-100 km/h (D) 3,3 s
80-120 km/h (D) 4,4 s
Travagem
100-0/50-0km/h 40/9,5 m
Consumos
Consumo médio 15,6 kWh/100km
Autonomia 185 km