Toyota Yaris 1.5 HDF First Edition vs Renaul Clio E-Tech 140 RS Line

À sua atenção, Sr. Fisco!

CONFRONTO

Por Vítor Mendes da Silva 09-10-2021 07:00

Fotos: Gonçalo Martins

Híbridos são mais eficientes do que os ‘combustão’ e a prová-lo estão Renault Clio E-Tech e Toyota Yaris Hybrid, ambos com consumos comedidos e até alguma condução elétrica. Qual é o melhor a desacreditar a ‘inteligência’ por trás do novo ISV, que deixa os HEV sem desconto fiscal? 

Com mais de 15 milhões de híbridos vendidos, a Toyota domina a tecnologia que é cartão de visita desta quarta geração do Yaris, o modelo mais importante da marca japonesa na Europa em quase duas décadas de sucessos. O totalmente novo utilitário estreia a plataforma modular TNGA, em versão adaptada ao segmento B (GA-B), permitindo progressos em várias áreas. A dinâmica (com o aumento de 37% na rigidez torcional, vias mais largas e a redução do centro de gravidade pelo recuo e abaixamento do banco do condutor), as cotas habitáveis (através do aumento de 50 mm na distância entre eixos), mas sobretudo a compatibilidade com a nova tecnologia híbrida de quarta geração da Toyota, em estreia na principal motorização do pequeno japonês. O sistema 1.5 Dynamic Force tem por base uma unidade de potência composta pelo novo motor 1.5 de três cilindros em ciclo Atkinson (é versão com menos um cilindro do 2.0 Hybrid Dynamic Force lançado o ano passado nos Corolla e C-HR (com soluções técnicas que lhe permitem atingir rendimento térmico de 40%), com 92 cv e 120 Nm, acoplado a caixa híbrida (transmissão de engrenagem planetária e velocidade única), redesenhada e mais compacta, um motor elétrico de 80 cv separado do gerador. Arrumada sob o banco traseiro, uma bateria de iões de lítio mais potente, mais rápida na carga e na descarga e 27% mais leve que a congénere de hidretos metálicos de níquel que substitui. Este módulo permite baixar os consumos mais de 20% (as emissões ainda mais), aumentar a potência em 15% até ao valor combinado de 116 cv e, tão ou mais importante, otimizando a entrega.

A Renault, com mais de uma década de experiência na produção em série de veículos 100% elétricos, é estreante na tecnologia de hibridação que batizou com a sigla E-Tech. No Clio, associação de mecânica atmosférica 1.6 a gasolina (com o mesmo princípio de eficiência da Toyota, de ciclo Atkinson), capaz de oferecer 91 cv e 144 Nm, a que se associam dois motores elétricos síncronos de íman permanente com dois níveis de potência, o principal com 49 cv (36 kW), que apoia o motor térmico, o segundo, motor de arranque/gerador, com 22 cv (15 kW), recarrega a r rpequena bateria de 1.2 kWh da Hitachi, e encarregue também de ajustar as rotações do motor térmico para que as relações de caixa sejam feitas de forma suave, quase impercetível. A marca francesa registou mais de 150 patentes com este sistema E-Tech, a maioria relacionada com a caixa de velocidades multimodo, com 15 modos de funcionamento (não são 15 velocidades), que alia três mudanças mecânicas e duas elétricas, solução desenvolvida com os engenheiros da F1, para, entre outras vantagens, evitar o escorregamento habitual nas caixas CVT e também nas que recorrem a engrenagens epicicloidais, solução utilizada pela Toyota no Yaris, e em que passou a haver, finalmente, uma maior proporcionalidade entre o ruído do motor e a progressão.

Já a resposta do sistema que gere a caixa multimodo da Renault nem sempre é tão lesta quanto seria desejável, aumentando o ruído do motor de combustão para níveis pouco agradáveis quando em subidas mais íngremes ou em ultrapassagens, restando aguardar que o módulo proceda à adequação do seu modo de funcionamento para um regime de motor mais dócil.

Claro que o foco principal deste recurso é a gestão ótima da entrada em ação do modo elétrico de condução sempre que possível, concedendo-lhe primazia. Tratando-se de híbrido auto-recarregável, o sistema arranca sempre em modo elétrico com total suavidade, dependendo das solicitações do pedal da direita a rapidez ou frequência com que o motor a gasolina é chamado à ação. A Renault estima que 80% do tempo de condução em ambiente urbano, o Clio circule sem a ajuda do motor a gasolina, performance ambiental notável, que a Toyota diz igualar.

Na prática, são duas fórmulas bastante competentes. O utilitário da marca do losango permite consumos que se r rsituam, frequentemente junto à barreira dos 4 l/100 km, até abaixo do consumo médio homologado em ciclo WLTP, não desiludindo nos trajetos mais exigentes fora da urbe, permitindo-se, em teoria, a circular em modo elétrico até perto dos 80 km/h, condição que contribui para média de consumo de 4,9 l/100 km. No modelo japonês, valores ainda mais convincentes, com o consumo combinado aferido durante o teste a variar entre os 3,5 l/100 km obtidos em estrada e os 4,5 l/100 km registado em trajeto urbano, numa média combinada de 4,3 l/100 km. O motor elétrico é capaz de mover sozinho o Yaris até 130 km/h.

A estreante motorização eletrificada  do Yaris, com potência conjunta de 116 cv (antes 100 cv), também permite acelerar mais rápido do que a congénere mais potente que equipa o Clio (10,4 s contra 10,8 s). Esta maior ligeireza, também confirmada na balança,  nota-se especialmente em cidade e  estradas limítrofes, onde o carro da Toyota mostra sempre mais desenvoltura, além de desempenho mais ágil. O peso do conjunto é de pouco mais de 1000 kg e isso faz toda a diferença.

Mas, depois, é também mais rápida e comunicativa a direção do Toyota. No compromisso entre conforto e eficácia da dinâmica também melhor o japonês, em que se elogia o salto considerável observado na qualidade de construção do interior, onde o novo Yaris elevou a fasquia. O utilitário francês  responde com apresentação mais moderna.

O estreante Clio E-Tech permite à Renault brilhar em feudo da Toyota, até há bem pouco tempo quase sozinha no segmento dos utilitários híbridos. Tecnicamente evoluído, incorporando tecnologias criadas pela marca francesa para a Fórmula 1, pretende assumir na gama o papel até aqui reservado aos Diesel, combinando consumos realmente baixos e performances interessantes. Acontece que, na tecnologia, a Toyota está realmente noutro nível, conseguindo conferir ao novo Yaris a dimensão emocional e dinâmica que faltava para somar aos trunfos racionais. A quarta geração do seu sistema híbrido é mais suave e equilibrado no seu  funcionamento, permitindo condução mais poupada, em elétrica por mais tempo e a mais velocidade.  

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