ElectriCity: revolução elétrica da Renault em marcha

A Renault irá construir uma nova gigafactory ao lado da fábrica de Douai, que produzirá baterias para os futuros modelos elétricos da Aliança, a partir de 2024

Apresentação

Por João Ouro 24-05-2022 20:00

A vitória de Emmanuel Macron nas presidenciais é um dos temas dominantes em França e essa reeleição é quase encarada por alguns setores como uma derradeira oportunidade. Na edição especial do 'L’Express', a manchete é inequívoca: 'la dernière chance' ou a última oportunidade.

Em junho de 2021, Jean-Dominique Senard, Presidente do Conselho de Administração, e Luca de Meo, CEO do Grupo Renault, receberam precisamente o Presidente da República francesa na fábrica de Douai, perto de Valenciennes (Hauts-de-France), dando-lhe conta da construção de uma gigafactory, como parte integrante do projeto ElectriCity, o qual também unirá as fábricas de Douai, Ruitz e Maubeuge.

A ambição do projeto permitirá a criação de 4500 empregos diretos até 2030 – cerca de 700 até 2024 –, incluindo um centro de formação e de investigação, além de um parque empresarial de excelência (start-up, fornecedores e logística), traduzível num investimento global de 3 mil milhões €.

Face à inovação do primeiro projeto do género a ser construído no 'coração' da Europa, Emmanuel Macron é perentório: «impõe-se a resposta aos desafios do futuro e à emergência climática. Investir nos veículos elétricos e na produção de baterias é a melhor maneira de preparar esse futuro».

O cluster ElectriCity enquadra-se na denominada estratégia 'Renaulution', anunciada por Luca de Meo, CEO do Grupo, a qual prevê o lançamento de quatro novos modelos 'zero emissões' até 2025. A saber: a reinterpretação do Renault 5 e, talvez, um 'crossover' inspirado no icónico Renault 4, ambos com base numa nova plataforma destinada à industrialização de automóveis para o segmento B, que também servirá o sucessor do Micra da Nissan.

A modular plataforma CMF-EV da Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi, a mesma que é utilizada no atual Mégane E-Tech Electric (o primeiro modelo 100% elétrico a ser produzido em Douai), também permitirá o desenvolvimento de um futuro modelo para o segmento C, provavelmente um SUV, que até poderá receber nome já conhecido: Scénic. Há ainda alguns rumores acerca de um eventual MPV, mas a única certeza confirmada diz respeito à produção da próxima geração do Kangoo na fábrica de Maubeuge.

O consórcio ElectriCity estima atingir cerca de 400 mil automóveis por ano durante os próximos três anos, contando ainda com o apoio da fábrica de Cléon, perto de Rouen, a qual, atualmente, fornece os motores para o Mégane E-Tech. Esta parceria conjunta pretenderá assegurar uma capacidade de 1 milhão de automóveis elétricos 'made in France' e até 2030. «Modelos acessíveis, populares e rentáveis», diz Luca de Meo.

 Parceiros fundamentais: Envision AESC e Verkor

A Envision AESC, empresa historicamente ligada à Nissan, encarregar-se-á da implementação da nova gigafactory em Douai, dedicando-se à conceção e à produção de baterias de última geração a partir de 2024. Por sua vez, a 'start-up' francesa Verkor – especialista em células e módulos –, dedicar-se-á à pesquisa, desenvolvimento e fabrico de baterias de elevada performance a partir de 2025, na fábrica de Dunkerque – cerca de 10 GWh em 2026 e 20 GWh até 2030. A capacidade prevista para a unidade de Douai atingirá cerca de 9 GWh em 2024 e 24 GWh daqui a oito anos.

Entretanto, o acordo que vigora com a LG Chem para o fornecimento de baterias também foi renegociado e, segundo Jean-Dominique Senard, Presidente do Conselho de Administração do Grupo Renault, «a produção em quantidade será crucial. Hoje, cerca de 85% da produção mundial ocorre na Ásia. Num futuro próximo, a unidade de Douai produzirá centenas de milhar de baterias por ano».

Douai: história com futuro

Inaugurada em 1970, a fábrica de Douai (nomeada Georges Besse – antigo Presidente da Renault, assassinado em 1986 pelo grupo terrorista Ação Direta), está situada perto de Valenciennes (norte de França), tendo produzido 17 modelos diferentes ao longo da sua história (10 milhões de veículos no total), entre os quais o Renault 5 de 1974, seguido pelo Renault 14, em 1976, tendo-se depois centrado na gama Scénic a partir de 1996.

Foi inteiramente remodelada em 2020, inclusive nas áreas de estampagem, carroçaria, soldadura e pintura (novos robots), além da logística, também por culpa do arranque da produção do Megane E-Tech Electric, tendo sido criada uma nova linha de montagem de 1 quilómetro com 400 postos de trabalho, assim como novas instalações dedicadas às baterias.

A robotização das várias etapas de produção foi alargada, assim como a digitalização para melhorar a performance de cada posto de trabalho (2800 no total), num investimento total de 550 milhões € nessa respetiva transformação de uma unidade com 45 hectares cobertos (230 no total).

Além do Megane E-Tech, a fábrica também produz as atuais gamas Scénic (IV) e Espace (V) e, de seguida, estará na calha o novo R5, assim como um eventual crossover compacto, até porque a Renault perspetiva que 90% das suas vendas, daqui a oito anos, assentará em modelos exclusivamente elétricos. A revolução está em marcha, como se se tratasse de uma derradeira oportunidade.

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